O título deste artigo despertará na mente do leitor, especialmente se o leitor for vascaíno, a indagação: “como assim, ‘enganando mais uma vez’? A Crefisa nunca esteve no Vasco!”
Esse espanto é fruto direto da pouca memória que costumamos dedicar a eventos importantes, não só no futebol, mas em todas as áreas. Arrisco a dizer que mais de 90% dos brasileiros não lembram do seu último voto para Senador da República, por exemplo.
Entre os vascaínos, quais são os que ainda cobram as reiteradas promessas de Pedro Paulo (presidente do Vasco que assina como “Pedrinho” para esconder o mau gestor nas costas do antigo jogador) sobre a reforma de São Januário, que começaria no fim de 2024, depois no primeiro semestre de 2025 e assim sucessivamente até ninguém falar mais no assunto?
Da mesma forma, muitos vascaínos não lembram que a família Lamacchia interferiu diretamente na última eleição do Clube, em 2023, fazendo falsas promessas em torno do seu candidato, o ex-atleta e ex-comentarista da Globo, “Pedrinho”. Sites importantes garantiam ao sócio do Vasco que o dinheiro da Crefisa iria encher os cofres de São Januário se Pedro Paulo fosse eleito. Vejam esta notícia que o site NETVASCO reproduziu no dia 18 de outubro de 2023, menos de um mês antes da eleição:
“Atual patrocinadora do Palmeiras, a Crefisa irá patrocinar o Vasco caso Pedrinho conquiste a vitória nas eleições presidenciais do clube. Roberto Lamacchia, fundador e dono da empresa, é um dos principais apoiadores na campanha do ex-jogador. A informação foi dada inicialmente pelo ‘LANCE!’ e confirmada pelo Esporte News Mundo”.
Neste mesmo 18 de outubro, com o título “Dono da Crefisa promete investimento se Pedrinho for presidente do Vasco” o site da CNN reproduzia declaração de José Roberto Lamacchia:
“Se ele (Pedrinho) for eleito, eu darei todo meu apoio a ele e à torcida do Vasco da Gama. Pode ter certeza de que ele será um grande presidente, com o meu apoio e com o que eu puder fazer por ele.”
No dia 07 de novembro, faltando, portanto, apenas 4 dias para as eleições vascaínas, o renomado jornalista Paulo Vinícius Coelho, conhecido como PVC, publicou uma coluna que foi destaque no UOL. Título: “Vasco terá apoio da Crefisa em novo São Januário caso Pedrinho seja eleito“. Segundo a coluna, a candidatura de Pedrinho contava com um compromisso de José Roberto Lamacchia, proprietário da Crefisa: “Caso você seja eleito presidente do Vasco da Gama, eu tenho o interesse de colocar o nome da Crefisa no naming right de São Januário.” A matéria trazia inclusive vídeo de São Januário reformado e a legenda: “São Januário Crefisa?”.
E Pedro Paulo foi eleito. Assumiu o mandato em janeiro de 2024. Não veio aporte financeiro, nem reforma de São Januário e muito menos “naming right”.
O que veio, em outubro de 2025, foi um empréstimo DIP (Debtor-in-Possession) de R$ 80 milhões, concedido pela Crefisa à SAF do Vasco, que está em recuperação judicial.
Longe de ser um “apoio por amor”, o empréstimo foi concedido acompanhado de cláusulas pesadas: a Crefisa impôs juros elevados (CDI + 7% ao ano), exigiu 20% das ações da SAF como garantia e conseguiu poder de veto sobre qualquer mudança na estrutura societária ou grupo de controle da SAF até 2026. Ou seja, o Vasco está submetido a um mecanismo de subordinação aos interesses de uma instituição financeira cujos donos são importantes nomes em um clube rival. Como é possível que um vascaíno honesto apoie tal insanidade?
Agora, os torcedores cruzmaltinos são chamados mais uma vez a acreditar nas atuais promessas da família Lamacchia, que deseja ser a nova dona da SAF Vasco, jurando que o “investimento” no Vasco será por paixão. A Crefisa é, em sua essência, uma empresa do mercado financeiro voltada para o lucro. É uma instituição financeira especializada em crédito pessoal, focada principalmente em negativados, aposentados e trabalhadores de baixa renda. O modelo da Crefisa é o que os especialistas chamam de “crédito predatório”, quando se ganha dinheiro explorando a vulnerabilidade financeira de seus clientes.
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e outros tribunais do país já condenaram a Crefisa repetidas vezes por cobrar juros que desafiam a razoabilidade. Em 2019, o TJ-SP condenou a empresa por cobrar juros superiores a 1.000% ao ano de um idoso de 86 anos em situação de vulnerabilidade.
Em agosto de 2025, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) suspendeu preventivamente os contratos com a Crefisa para o pagamento de novos benefícios. A decisão ocorreu após uma enxurrada de denúncias envolvendo: Coação para abertura de conta corrente e venda casada de produtos; Dificuldade e impedimento no recebimento de benefícios (atrasos e limitações de saque); Empréstimos consignados realizados sem a autorização dos aposentados; Portabilidades indevidas e não autorizadas.
Sem pena dos idosos e aposentados, a Crefisa, no entanto, morre de amores pelo Vasco. Convenhamos que acreditar nisso exige uma dose cavalar de ingenuidade.
Mas alguns vascaínos não só acreditam como acreditam fanaticamente.
Seria o presidente do Vasco, funcionário da família Lamacchia?
E o papel do Pedro Paulo nisso tudo? Tenho a forte suspeita, que beira a convicção, de que “Pedrinho” é funcionário de José Roberto Lamacchia desde 2023.
O que me leva a essa suspeita? Alguns indícios. Vamos a eles.
Indício 1 – Na eleição anterior à sua vitória, em 2020, Pedro Paulo foi eleito e renunciou ao cargo de Conselheiro do Vasco antes de assumir a cadeira, por “questões pessoais e compromissos profissionais” (confira neste link). Seus pares tentaram demover “Pedrinho” da renúncia, mas teriam ouvido do correligionário que ele “precisava trabalhar para sustentar sua família”, já que o cargo de Conselheiro não é remunerado. Detalhe: o Conselho Deliberativo do Vasco reúne-se, em média, a cada três meses, sempre fora do horário comercial. Porém, em 2023 “Pedrinho” abandona o emprego de comentarista da Globo e se candidata ao cargo (igualmente não remunerado) de presidente do Vasco, que exige tempo integral. Quem está pagando o salário do presidente? Esta pergunta está ligada diretamente ao indício 2.
Indício 2 – Em nenhum momento ao longo de seu mandato, Pedro Paulo mencionou as promessas não cumpridas pela família Lamacchia em relação ao apoio financeiro a sua gestão e ao patrocínio em São Januário, talvez porque em relação à pessoa física, os compromissos estejam sendo cumpridos, e em dia.
Indício 3 – Tanto José Roberto Lamacchia como seu herdeiro afirmam e reafirmam que só estão interessados em comprar o Vasco se o Clube estiver sob o comando de Pedro Paulo. Isso é, muito, muito inusual.
Em geral, operações desta magnitude são (ou deveriam ser) conduzidas com a máxima institucionalidade e profissionalismo. Ao colocar a questão pessoal como determinante, pode-se inferir que a Crefisa quer comprar o time em condições muito desfavoráveis ao Clube associativo, que só seriam aceitas por quem já está comprometido com o comprador de forma irremediável. Tanto assim que Pedro Paulo, através de seus aliados no Conselho, apresentou uma proposta de reforma estatutária que elimina a necessária quarentena de cinco anos para que um dirigente do Clube possa ser empregado da SAF. Seria o plano do “Pedrinho” doar o time de futebol para o Lamacchia e em seguida ser contratado pela SAF, legalizando assim o que hoje é clandestino?
Indício 4 – “Pedrinho”, ao apresentar, em maio de 2026, o balanço do Clube e da Vasco SAF 2025, disse, no texto de apresentação, que as finanças vascaínas estavam indo muito bem, obrigado.
O Clube, segundo ele, estava com as finanças equilibradas e a SAF havia registrado um lucro de R$ 81,2 milhões. “o que se consolida é a criação de fundamentos sólidos que permitem ao Vasco projetar um futuro mais estável e competitivo, de maneira consistente a longo prazo”, garantia a diretoria executiva da Vasco SAF.
Menos de dois meses depois deste texto, José Roberto Lamacchia, preocupado com o afastamento temporário do Pedro Paulo do comando da SAF, concede entrevista ao jornalista Lucas Pedrosa e faz o que costumam fazer os negociadores hábeis (e com poucos escrúpulos): depreciar o que se deseja comprar para reduzir o preço e fortalecer sua posição. Lamacchia pai declara simplesmente que o “Vasco está falido” e vender o time para seu filho (Marcos Lamacchia) seria a única salvação.
Pedro Paulo, que pouco antes havia garantido o contrário aos sócios e torcedores, deveria, obviamente, partir em primeiro lugar em defesa da instituição que representa e em defesa de sua própria honra. Estranhamente, fica calado, lembrando o comportamento de um subalterno, que até aceita ser colocado em contradição, pois nada dirá que entre em confronto com o “chefe”.
O indício mais forte
O indício mais forte de uma relação de subordinação do “Pedrinho” com pessoas que querem comprar o time, veio com o texto divulgado pelo próprio presidente do Vasco, logo depois de uma nova decisão da justiça recolocá-lo no comando da SAF Vasco, nesta sexta-feira (10).
Na carta aberta, o agradecimento principal que o presidente do CRVG faz, depois da Justiça, é “à família Lamacchia, que cuidou do Vasco”. Como assim, a família Lamacchia cuidou do Vasco?
Com a carta, inadvertidamente Pedro Paulo revela duas coisas:
1ª – a negociação para a venda da SAF é realmente com a família Lamacchia como um todo e não apenas com Marcos Lamacchia. Embora qualquer pessoa com dois neurônios em funcionamento saiba que é a Crefisa (José Roberto Lamacchia e Leila Pereira) a empresa que verdadeiramente está comprando o time do Vasco (e não a tal Almirante Empreendimento Ltda), isso era negado em público por eventual conflito com o regulamento da CBF, pois Leila Pereira é presidente do Palmeiras e não poderia controlar outro time direta ou indiretamente, através de parentes. Agora, Pedro Paulo escancarou o que era oculto, pois a “família Lamacchia” inevitavelmente significa, no mínimo neste caso, filho, pai e madrasta;
2ª – Ao dizer que a “família Lamacchia cuidou do Vasco”, o presidente do Vasco admite que, sem passar por qualquer deliberação dos sócios, sem que nenhum vascaíno além de seu círculo de amigos conheça as condições da venda, o futebol vascaíno já está sob o comando da família Lamacchia. E se Lamacchia é de fato quem está “cuidando do Vasco”, tudo leva a crer que Pedro Paulo, nominalmente presidente do Clube e agora de novo principal mandatário da SAF, não passa de um funcionário desta família e atende aos interesses dela e não do CRVG.
Risco existencial
Por fim, apenas uma palavra sobre um argumento que alguns vascaínos usam de boa fé: “se o presidente do Flamengo, Bap, é contra a venda para a Crefisa, então a venda deve ser boa para o Vasco”.
Esse argumento tem, sem dúvida uma lógica. Eu poderia dizer que o Bap está provavelmente usando a técnica da “psicologia reversa”, quando você defende o oposto do que realmente pensa, para provocar uma reação ou motivar uma ação desejada. Nesta hipótese, o Bap, que deseja o pior para o Vasco, ataca a venda do time cruzmaltino para a Crefisa justamente sabendo que sua atitude acirra o sentimento a favor da venda entre a massa vascaína.
Contudo, fico em dúvida se o Bap tem este nível de sutileza. No que acredito mesmo é que ele reproduz aqui tão somente o conflito com a Leila Pereira com a qual o Flamengo vem travando há tempos uma guerra aberta.
Na verdade, pouco importa o que pensa o Bap sobre a Crefisa ou a Leila Pereira, o que importa é o que os vascaínos pensam sobre o risco existencial de entregar o futuro do clube para uma empresa financeira.
O Vasco vai fazer, no próximo dia 21 de agosto, 128 anos. A Crefisa tem 64 anos. Segundo pesquisa da Associação Comercial de São Paulo, apenas 0,01% das empresas privadas alcançam o centenário. Na falência de uma SAF, os ativos são arrecadados para pagar credores e a instituição centenária poderia ser liquidada para satisfazer as dívidas contraídas pela gestão financeira da Crefisa.
Assim, cabe aos vascaínos que se opõem à venda do Vasco não se renderem à pressão midiática ou de setores alienados e/ou corrompidos da torcida e entrarem nesta peleja judicial em defesa do futuro do Vasco.
Ressaltando que não sou advogado e não posso apontar caminhos nessa seara, penso, como leigo, que em primeiro lugar deveríamos questionar juridicamente se o processo da venda conduzido pelo “Pedrinho” atende aos requisitos de idoneidade e defesa dos interesses do clube, ou se está viciado por outras relações que ele teria com a empresa compradora. Como aposto nesta segunda hipótese, penso que talvez esse seja um caminho para salvar o Vasco de uma nova tragédia anunciada.
Por Wevergton Brito Lima, jornalista, sócio proprietário remido do Club de Regatas Vasco da Gama
É fundamental tirar as máscaras dos aventureiros e entreguistas.
Também acho que outra saída é possível mantendo o Clube livre desses oportunistas. A própria história do Vasco comprova isso.