Maracanã: Um crime planejado e anunciado à luz do dia

Final da Copa de 1950 entre Brasil e Uruguai com, segundo estimativas, 200 mil pessoas presentes

O Maracanã, como se sabe, foi construído para a Copa de 1950. Orgulho arquitetônico e desportivo do Brasil, conhecido em todo o mundo, foi erguido com dinheiro público, vindo dos brasileiros, torcedores ou não de clubes de futebol, mas entre os aficionados, fãs de todas as cores contribuíram.

Por Wevergton Brito Lima*

Durante décadas, o Maracanã recebeu comumente públicos superiores a 100 mil pessoas e o perfil do frequentador era democrático: as classes populares eram a maioria.

Com o tempo, alterações foram sendo feitas, sempre no sentido de elitizar o acesso ao estádio, em consonância com o que pregava, já na década de 1990, um alto executivo da TV Globo, que em declaração naquela época, ao jornal O Globo, vaticinou, com essas palavras: “no futuro, o proletariado irá assistir os jogos pela TV”.

Em 2010 o sonho do Grupo Globo foi tornado realidade com a consecução da reforma que diminuiu drasticamente o tamanho do estádio, transformando-o em uma “arena” destinada à classe média e à elite.

Em 2019, outro golpe duro: contrariando os próprios termos do Edital de Concessão, que vetava a presença de clubes de futebol como administradores, o então governador Wilson Witzel (mais tarde afastado por corrupção) entregou o Maracanã para a gestão do Flamengo (com o Fluminense como coadjuvante), em flagrante ilegalidade, convenientemente ignorada pelos que deveriam denunciá-la. Flamengo e Fluminense jamais tinham administrado antes qualquer estádio de porte, sequer médio.

Agora, um ardil fatal para a história e o espírito do “Maraca” está em curso. Em articulação com a Assembleia Legislativa e o Governo do estado, o Estádio Jornalista Mário Filho (nome oficial do Maracanã) foi colocado em uma lista de imóveis que podem ser vendidos. O comprador já tem nome e sobrenome anunciado publicamente: o Club de Regatas do Flamengo.

Este não é um texto antiflamenguista, mas é um fato inescapável que o Flamengo invariavelmente, ao longo de sua história, contou, para usar uma palavra benevolente, com o “beneplácito” da elite carioca, principalmente da família Marinho, dona do Grupo Globo que, afoito, apenas três dias depois de a ALERJ incluir o estádio entre os imóveis que podem ser vendidos, publicou um vibrante editorial em seu jornal onde defende explicitamente que o Estádio seja entregue ao clube do coração da família Marinho.

Um dos argumentos do editorial: o Flamengo já possui experiência na gestão de Estádios. Qual experiência? Justamente, a concessão imoral que ganhou inicialmente do Witzel.

Um acinte que atinge todos os torcedores do Brasil.

Será um prêmio e um presente para o clube da Gávea que nunca conseguiu erguer um estádio contando com suas próprias forças.

Presente porque não precisa ser vidente para prever que o “pagamento” será alongado por infinitas parcelas, sofrerá renegociações generosas ante qualquer dificuldade financeira e ao fim e ao cabo, seremos todos nós que arcaremos com a compra, por um ente privado, de um bem público.

Já o aspecto do prêmio guarda algo de macabro. A notícia da articulação para entregar o Maracanã ao Flamengo vem logo depois de a justiça fluminense considerar que não houve culpados pela morte de dez jovens no incêndio do Ninho do Urubu em 2019. As vítimas, que morreram dolorosamente queimadas por incúria assassina, estavam abrigadas em contêiners precários, sem condições de habitação prolongada e sem rotas de fuga.

O CRF ganha, assim, um prêmio manchado de sangue por sua expertise em gerir espaços esportivos.

É preciso denunciar e lutar contra este crime, anunciado à luz do dia, com a desfaçatez de quem julga que está acima de toda e qualquer lei.

* Jornalista

2 comentários

  1. Sou um simples torcedor , leigo mas antiflamenguista, por acompanhar o futebol há 50 anos e ver o quanto de esforço de quase 70 % dos jornalistas esportivos da Globo fazeram para proteger e inaltecer o clube da Gaveu. Agora entendo o motivo, puxar saco dos Marinhos.
    Canalhas!

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