Desabafo de um vascaíno em luto

Melancólico: o time com a alma mais carioca vendido por uma ninharia para uma empresa paulista, sob aplausos de alienados

Nesta terça-feira (6/10), o Conselho Deliberativo do Club de Regatas Vasco da Gama deu sinal verde para vender o futebol vascaíno à empresa Almirante Empreendimentos S/A.

Entregar o destino de um clube associativo de massa por meio da venda do futebol, seu principal ativo, exige ampla reflexão e cuidadoso estudo das condições contratuais.

E em que condições o futebol será vendido? Marcos Lamacchia terá 90% das ações da nova SAF, contra os 70% detidos pela 777 Partners à época da primeira venda.

O Vasco terá apenas um membro no Conselho de Administração e, pasmem, quem indicará esse representante não será o Clube, mas a própria empresa. O Clube tampouco terá qualquer representante no Conselho Fiscal da SAF.

Derrubou-se também a quarentena que impedia dirigentes do associativo de receber remuneração da SAF.

Na verdade, a família Lamacchia terá 100% de controle efetivo e os “representantes” do Clube não passarão de funcionários obedientes de quem os remunera. Isso deixa o Vasco sem qualquer proteção.

O investimento efetivo, por outro lado, é de R$ 500 milhões em cinco anos, o que representa R$ 100 milhões por ano, pouco mais de R$ 8 milhões por mês, ou seja, uma proposta irrisória que o Vasco, com recursos próprios, seria capaz de alcançar.

Mas a torcida tem pressa, dirão alguns, e quer a venda.

De fato, a nossa imensa torcida, sem jamais abandonar o time, vem dando provas emocionantes de amor e exige que as equipes, principalmente a de futebol, voltem a honrar as tradições vascaínas, disputando e vencendo títulos.

É aviltante, no entanto, usar esse nobre sentimento, essa vontade justa da torcida, como instrumento de manipulação a serviço de outros interesses.

Lembremos que, embora a Crefisa (que, cá entre nós, é a verdadeira compradora) não seja a 777 Partners, nem a família Lamacchia seja o Josh Wander (ex-CEO da 777), o roteiro é praticamente o mesmo.

Com a promessa de títulos e investimentos milionários, ignorou-se antes e ignoram-se agora todos os avisos e advertências, apoiando-se no desespero da torcida.

Na venda anterior, o negócio foi realizado sem que sócios e conselheiros conhecessem o contrato. E de novo, a condução do atual processo é marcada pela falta de transparência.

Segundo o próprio Marcos Lamacchia, em carta anexada pelo Vasco à Justiça no início de julho, as tratativas para a venda existem há mais de dois anos. Notem: isso significa que as negociações eram conduzidas antes mesmo de a empresa Almirante existir.

Portanto, desde o início de 2024, a atual gestão negocia com a família Lamacchia sem o conhecimento do Conselho Deliberativo, do Conselho de Beneméritos, do Conselho Fiscal e do conjunto dos sócios.

O presidente da Diretoria Administrativa, Pedro Paulo (mais conhecido como Pedrinho, como era chamado quando jogava), deliberadamente ocultou as tratativas de todos os órgãos institucionais do Clube durante o maior tempo possível e, ao final, promoveu um leilão judicial em que colocou à venda 90% das ações, algo que o estatuto do Vasco simplesmente proibia. Os contratos com a Almirante foram previamente assinados antes de qualquer autorização dos conselheiros e sócios.

Desta forma, o Conselho Deliberativo deliberou sem discutir a fundo a venda, sob um clima de chantagem e de fato consumado.

Isso é de uma imoralidade gritante e representa a morte institucional do Vasco.

A venda é um ato definitivo, dificilmente reversível. Atrelar desta forma o Vasco ao destino de uma empresa não é aceitável. Bancos e empresas do mercado financeiro não são conhecidos pela generosidade ou pelo altruísmo. E, especificamente, a empresa que está comprando o Vasco usará o time para suas finalidades, enquanto a torcida deseja vitórias e títulos, que exigem altos investimentos a fundo perdido. Os objetivos da torcida e da empresa são díspares e inconciliáveis.

Clubes poderosos escolheram esse caminho e pagaram um alto preço. O Bordeaux, seis vezes campeão francês, foi obrigado a dissolver sua equipe profissional e fechou seu centro de treinamento. Em setembro deste ano, foi vendido simbolicamente por um euro, mas ainda não tem prazo para voltar a disputar partidas.

O Parma teve de recomeçar na Série D; suas marcas, troféus e outros ativos foram postos em leilão.

A SAD do Boavista foi liquidada e seus imóveis estão em processo de venda.

Exemplos como esses, temos às mãos cheias.

Os poucos conselheiros vascaínos que tiveram a dignidade de votar contra a venda estão sendo atacados nas redes.

Um deles fez o Pedrinho sair do sério, durante a reunião, ao recordar uma informação divulgada pelos próprios aliados do presidente: intermediários receberão comissões pela venda do Vasco. Pedrinho reagiu sem sequer ter sido citado, o que não deixa de ser revelador.

Os vascaínos somos tributários de gerações anteriores de pioneiros que construíram a grandeza e o patrimônio do Clube de forma voluntária, enfrentando preconceitos sociais e raciais e, muitas vezes, sacrificando interesses profissionais e particulares, tudo em prol de uma paixão.

Fico pensando nos vascaínos anônimos e nos grandes nomes que construíram essa trajetória e imagino como eles se sentiriam assistindo a uma festa que, na verdade, tenta disfarçar o que acontece nos fundos do salão: o velório do que foi um dia um Clube orgulhoso de sua história, de sua independência, de sua força e que hoje, melancolicamente, virou mercadoria barata mercadejada por arrivistas.

Wevergton Brito Lima, jornalista, secretário-geral do Movimento Vasco do Povo e sócio do Vasco há 43 anos

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