Conheça o manifesto lançado pela oposição vascaína

Foto: Aline Martins

A primeira reunião de construção da Chapa de oposição vascaína, visando as eleições de 2026, aconteceu no último dia 30/10, como já foi amplamente divulgado em diversos meios de comunicação.

Mais de 100 sócios lotaram o auditório da Casa dos Açores, na Tijuca, entre eles 17 membros do atual conselho deliberativo. Estiverem presentes os conselheiros Henrique Serra, Leonardo Rodrigues, Maurício Cardoso, Mauro Abdon, Mauro Ferreira, Pedro Strozenberg, Sérgio Machado e Vinicius Machado; os Beneméritos Roberto Monteiro, Orlando Marques e Aníbal Rouxinol e os Grandes Beneméritos Emmanoel Ursulino, Gilson Ferreira, Itamar Ribeiro, Luiz Ferreira, Paulo Martins Pereira e Walter Ramos.

Na ocasião foi lido um Manifesto inicial, que durante a caminhada de construção da chapa de oposição, contará com os aportes dos vascaínos e vascaínas que desejam que o Vasco recupere o protagonismo em todos os esportes, e em especial no futebol.

Leia, abaixo, o texto.

Manifesto Inicial da Oposição Vascaína

30 de outubro de 2025

A história comprova que o gigantismo do Club de Regatas Vasco da Gama está contido em sua gênese. Isto é: seu quadro associativo que teve como ponto de partida 62 fundadores, entre estes, destaca-se o pioneirismo de Henrique M. Ferreira Monteiro, Luiz Antônio Rodrigues, José Alexandre D’Avellar Rodrigues, Manuel Teixeira de Sousa Junior, José Lopes de Freitas e Francisco Gonçalves Couto Junior.

A existência de nosso clube deve-se às primeiras gerações de vascaínos, sobretudo, a juventude comerciária, dos operários das serralherias a vapor, dos empregados e empregadores do comércio de secos e molhados da Saúde, que misturaram imigrantes portugueses e brasileiros com um objetivo comum: construir o Vasco.

A partir dessa gente, luso-brasileira e que vivia do seu próprio suor, o Vasco se tornou o maior clube de todos antes mesmo do Brasil levantar sua primeira Taça Jules Rimet com o nosso capitão Bellini e o mundo se encantar com o talento de Pelé. Ademais, não por acaso, Pelé se tornou Vasco pela força desportiva e nacionalização da torcida do gigante em meados do Século XX.

Mas, o nosso Vasco, ainda em seus primórdios, se provou como uma instituição republicana e de associados abnegados, que optaram por fazer história e não sucumbir aos desafios e as perseguições antilusitanas, elitistas e racistas.

O sócio Mário Borges leu o Manifesto incial da Oposição / Foto: Aline Martins

Em 1904 (16 anos após a abolição da escravatura) os associados vascaínos elegeram Cândido José de Araújo (Candinho), o primeiro presidente negro dos grandes clubes do país, que antes de se tornar presidente do CRVG passou por postos de comando como a tesouraria e a vice-presidência e depois se tornou benemérito do clube.

O Vasco chegou no futebol em 1915, tendo Raul da Silva Campos como principal altaneiro desse novo desafio. Em menos de uma década disputando a modalidade, o CRVG se provou como clube desportivo e social. O Campeonato Carioca de 1923, vencido de modo avassalador pelos Camisas Negras quebrou todos os paradigmas de uma época. De tal forma, é acertada a afirmação de que a Resposta Histórica, assinada pelo presidente José Augusto Prestes, é a certidão de nascimento da luta antirracista no futebol brasileiro. Aliás, 1923 igualmente marca o início do futebol feminino no Brasil, tendo como pioneiras mulheres associadas ao Vasco da Gama.

A conclusão da luta inaugurada pela Resposta Histórica foi a construção do monumental Estádio de São Januário em 1927, que foi erguido pelas mãos da própria torcida vascaína. Por isso, São Januário é a razão de um orgulho singular para todos que carregam a cruz de malta no peito. Ademais, também é preciso registrar que o nosso Caldeirão não se resumiu ao gramado que hospedou grandes times, como o místico Expresso da Vitória montado por Cyro Aranha, mas, igualmente se materializou como o principal palco nacional até a construção do Maracanã, abrigando comícios cívicos memoráveis, como a proclamação das Leis Trabalhistas por Getúlio Vargas.

As pesquisas sérias comprovam que o Vasco entrou na segunda metade do Século XX sendo o clube com a maior torcida nacional, com maior número de associados, maior número de títulos, maior em patrimônio material e com maior expressão simbólica, mesmo que nesse aspecto houvesse uma desconstrução consciente dirigida por setores hegemônicos da imprensa que assumiram o rival como seu clube.

Em todo caso, está claro que, a geração seguinte de vascaínos, que vieram depois dos idealizadores da fundação e de nomes como de Alberto de Carvalho e Silva, Joaquim Carneiro Dias, Cândido José de Araújo, José Augusto Prestes, Raul da Silva Campos, Antônio de Almeida Pinho, Antonio Campos e Ciro Aranha, tiveram o mérito de seguir o fio de continuidade dessa tradição.

De tal forma, mesmo com erros e acertos, as gestões de Agathyrno Silva Gomes, Antonio Soares Calçada e Eurico Miranda, mantiveram o Vasco como um clube de expressão nacional e internacional. Paralelamente, vieram os grandes títulos como o Tetra Brasileiro, a Libertadores das Américas, a memorável virada histórica da Copa Mercosul, entre muitos outros. Assim, o Vasco da Gama entrou no Século XXI não devendo em números aos períodos de ouro do passado.

Portanto, os signatários desse Manifesto estão convencidos de que o problema do Vasco no tempo presente não se resume à crise financeira. Até porque: crises desse tipo o Vasco atravessou por inúmeras vezes e as superou, sem perder sua grandeza. Tampouco a razão de nosso declínio se remete ao “amadorismo do associativo”, o que é uma contradição insolúvel, uma vez que o gigantismo do Vasco da Gama foi materializado justamente pelo associativo.

Outro ângulo do auditório lotado / Foto: Aline Martins

O fato objetivo é que o fio de continuidade socioesportivo e institucional foi rompido por uma corrente política no interior do clube avessa às tradições do Vasco. A crise do Vasco, portanto, que teve sua eclosão no rebaixamento de 2008 e se estende até o momento (com poucos respiros nesse duro percurso), levou vascaínos de boa-fé apostarem suas fichas na venda do clube, acreditando que uma empresa saberia gerir o CRVG melhor que seus associados.

Pior: o futebol do clube não foi vendido sequer de modo transparente. Pelo contrário, a proposta de venda, tendo aparente exclusividade com a 777 Partners e com contrato secreto, foi montada e operada pela administração Salgado que conservava os piores resultados esportivos de todos os tempos. Resumindo: o futebol do Vasco foi vendido por incompetentes incontestes e ilegítimos, pois venderam o nosso time sustentados por uma liminar após o golpe na eleição de 2020.

Interesses ocultos – sejam eles esportivos, políticos ou financeiros, ou tudo isso somado – explicam a estranha a massificação da venda do clube pelos canais globais (com youtubers monetizados pegando carona). Sob esse escombro está a atual gestão. Todavia é preciso registrar que Pedrinho apoiou Salgado e endossou a narrativa da venda na condição de comentarista da Rede Globo.

A manobra com o ex-jogador e ex-comentarista da Globo como candidato, somando-se ao desespero da torcida, foi combustível suficiente para que os sócios votassem no mesmo projeto que vinha destruindo o clube desde quando o grupo Sempre Vasco com Júlio Brant à frente, apoiou a sustentação da gestão Campello.

De tal forma, Pedrinho se tornou presidente do Vasco da Gama, elencando características de uma espécie de outsider, que por um lado se moveu para fazer o óbvio “diante do penhasco”: tirar o controle da 777 do futebol. Mas, por outro, se revelou tão vaidoso quanto incompetente para comandar o CRVG. Por isso, sua gestão é um carrossel de declarações estapafúrdias e com profissionais questionáveis no comando do futebol como Felipe Loureiro. Porém, essa é a ponta do iceberg de um movimento de destruição interna conduzido por gente de carne e osso. Por isso, não passa de um engodo a agitação cínica de “revenda”.

O Vasco necessita de vascaínos comprometidos com a sua história mais do que centenária e não de supostos “vascaínos” que estão há quase uma década em gestões seguidas fazendo indecências que talvez poucos torcedores dos rivais teriam coragem de cogitar. Por isso, a indignação do vascaíno deve se tornar em organização política, com o objetivo de resgatarmos o que ainda sobrou de nosso clube e não se abraçar numa placa de “vende-se”. O que não significa fechar as portas para investidores e parceiros econômicos.

Investidores e parceiros, sim, donos não!

Instituições como o Vasco nasceram para vencer. Porém, as conquistas não são consequência, apenas, da modernização de processos, adequações ao tempo em que se vive ou projeções de futuro baseadas em técnicas administrativas e financeiras visionárias. Nada disso funcionará, especialmente em entidades centenárias, sem o devido respeito aos seus princípios, tradições e raízes.

Foto: Aline Martins

Entende-se, portanto, que o progresso do Vasco no rumo da retomada das conquistas históricas só é factível se fortemente ancorado às suas origens, suas premissas fundadoras. O Vasco moderno, fortalecido pela representatividade da juventude e das mulheres, só é possível com a existência do Vasco tradicional. O Vasco vencedor do futuro só é viável ao reconhecer que nada funcionará sem que o seu passado atue como guia dos seus objetivos. Não se trata, apenas, de honrar a nossa História. Trata-se de trazer ao plano atual as ações de sucesso adotadas pelos primeiros vascaínos, que nos levaram à nossa inquestionável grandeza. Os vascaínos precisam ter a hegemonia das decisões, até mesmo no modelo SAF, pois são eles que compreendem o que tornou o Vasco gigante.

Veja mais imagens do evento na galeria abaixo (fotos de Aline Martins):


1 comentários

Deixe um comentário para ROBSON DE BRITO BAPTISTA Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *