Desde que publiquei o livro “Vasco: o clube do povo – uma polêmica com o flamenguismo (1923-1958)” em 21 de agosto de 2020, sustento que o Vasco da Gama foi o maior de todos, isto é, o clube de mais prestigio e importância nacional que convergia ao redor de seu pavilhão a marca do pioneirismo no futebol de quem lutou por negros, operário, semiletrados e imigrantes portugueses, que hegemonizou de modo avassalador o remo, que se afirmou como a instituição esportiva com o maior número de títulos, torcedores, associados e de patrimônio, construído pelo próprio quadro associativo do clube.
Por Leandro Fontes
Essa afirmação, focalizada numa minuciosa pesquisa comparativa entre os principais rivais do Rio de Janeiro, principalmente o clube da Gávea, não foi nenhuma novidade dita por um cruzmaltino. Pelo contrário, a Revista Polyanthéa Vascaína (1927), o Álbum dos 60 anos (1959) e, sobretudo, as crônicas de Álvaro do Nascimento (“Cascadura”) já expressavam esse fato na imprensa escrita.
Entretanto, nos últimos anos, surgiram nas entranhas do Vasco, dois tipos de narrativas danosas, que, de modo consciente ou inconsciente, ocultam e falsificam a natureza da grandeza histórica do Club de Regatas Vasco da Gama. Uma afirma que “o Vasco era a ‘quarta’ força do futebol carioca e só passou a ser a ‘primeira’ com a chegada de Eurico Miranda”. Essa idealização “mitológica” não só menospreza o passado edificador e de glorias do clube, como, ao mesmo tempo, subtrai – em nome do “herói” – o papel coletivo do poderoso quadro social vascaíno. Isto é: de homens e mulheres que devotaram suas vidas e seus recursos para fazer o Vasco da Gama uma potência, sem o auxílio de governos e de frações da classe dominante no Brasil.

Disto isto, quero deixar claro que, da minha parte, o dirigente Eurico Miranda foi parte destacada dessa seleta amálgama de vascaínos que entregaram o melhor de suas energias em nome da construção do nosso clube. Porém, não é razoável compactuar com uma narrativa que traduz a grandeza do CRVG sob a mesma régua desse ex-dirigente de carne e osso, que reuniu méritos e equívocos em sua trajetória. De tal forma, conforme fecha a nota da direção do Vasco da Gama no Álbum comemorativo dos 60 anos do clube: “os homens passam, mas o Vasco fica”.
Todavia, há outra narrativa que reduz a zero o papel participativo do quadro associativo do clube, criminaliza os dirigentes do passado e eleva quase que ao patamar do “obscurantismo ou da ordem divina” a trajetória de conquistas desportivas, patrimoniais e sociais do CRVG. Ou seja, essa versão não só se opõe violentamente ao “herói” mitológico. Mas, ao mesmo tempo, é absolutamente negacionista das raízes e do desenvolvimento científico do clube, erguido por sua vanguarda associativa. Portanto, negam a existência material de seres pensantes e com capacidade de governança dentro do próprio quadro social do Vasco.
Quer dizer, a base conceitual dessa narrativa se aproxima da alcunha do “complexo de vira-lata” de Nelson Rodrigues, que, em síntese, significa um carma de “inferioridade” patológica. Além disso, agrega-se uma estranha desconfiança moral do sujeito indeterminado “quadro associativo” que se propõe disputar os rumos políticos do CRVG (tal como ocorre nos clubes que lideram o campeonato brasileiro há uma década), que para essa narrativa, não passam de “aproveitadores e corruptos”. Ou seja, estão no Vasco para supostamente tirarem proveito dele e não para gerir em benefício do próprio clube e da sua torcida. O paradoxal é que quem utiliza a narrativa do “complexo de vira-lata”, também participa ativamente das eleições do Vasco e das decisões dos poderes do clube.

De tal forma, essa narrativa é a mais palatável para ser facilmente utilizada pelos algozes do Vasco (como o Grupo Globo), na perspectiva de tirar o CRVG das mãos dele mesmo e entregá-lo para terceiros que conservam o lucro como finalidade, em troca de promessas de “recuperação financeira, modernização da gestão, transparência e sucesso como os clube europeus”. No entanto, como pode-se ver a olho nu com a venda do futebol do Vasco, o que ocorreu foi justamente o oposto do propagado: a dívida de 120 anos de associação duplicou em menos de cinco anos de SAF; o que ocorreu de “novo” na gestão foi a presença de um flamenguista como CEO do clube; o Vasco se tornou mais fechado e antidemocrático, portanto, menos transparente; e os resultados esportivos, seja no futebol, remo e basquete, são pífios, dignos dos clubes de segunda linha da América do Sul.
Contudo, a solução do “complexo de vira-lata” agitada pelos detratores históricos do CRVG, não por coincidência, é a mesma que foi conduzida, na base de um contrato sigiloso, pelos mercadores da gestão Salgado e seus aliados úteis (Sempre Vasco, Júlio Brant, Pedrinho, Felipe e Edmundo): a placa de vende-se casada com menor participação decisória do quadro associativo no clube. Não à toa, brotou a proposição de reforma do estatuto do CRVG nas vésperas de um movimento de venda por parte da gestão Pedrinho, que, a rigor, é a continuação da gestão anterior. Porém, há um elemento mais nocivo nesse atual momento, Pedrinho possui uma parceria sólida com a Globo, com parte das torcidas organizadas e com uma gama de canais de YouTubers monetizados que blindam sua gestão até em pontos obscuros como a função em peso de ouro de Felipe Loureiro no departamento de futebol, além da nefasta proposta de extinção do Sócio Geral do quadro associativo e a indecente remuneração com altos salários da diretoria administrativa do CRVG.
Nota-se que essa posição é antípoda em todos os sentidos dos períodos de ouro do Vasco da Gama, sobretudo de 1923-1958, que irrefutavelmente desfilava no cenário nacional como o maior clube de todos. Afinal, enquanto um lado construiu um clube vitorioso sustentado por recursos doados pelos próprios sócios e torcedores, o outro, o atual, propõe receber para vender o clube que afirma “amar”.
Por isso, não é de se estranhar que a narrativa do “complexo do vira-lata” está contida e é parte orgânica dos setores que levaram o Vasco à hecatombe na qual se encontra. Portanto, os vascaínos, sócios e torcedores, devem se opor aos mercadores que agitam a oportunista narrativa do “complexo de vira-lata”, que significa negar que o próprio Vasco não possui força e condições de ser grande. E, mais do que isto, a narrativa lesa-pátria do “complexo de vira-lata”, chancela a posição de que o CRVG existe para ser vendido como um produto para gerar lucro à terceiros enquanto o clube é desmantelado por dentro, não pelo “herói” mitificado, mas por “ídolos” ressignificados e aplaudidos por velhos algozes. De tal forma, a palavra de ordem não é “revenda já” e sim retomada do nosso Vasco, já!