A mesa redonda ao vivo transcorria normalmente, com as platitudes e polêmicas forçadas de sempre, quando, não se sabe como, materializou-se, na bancada, uma pessoa não convidada. No caso, um homem, de meia-idade, com um vistoso bigode preto e uma surrada camiseta do Vasco esticada no ventre um tanto avantajado.
Diante da aparição insólita, o apresentador perplexo perguntou ao estranho:
— O que você faz aqui?
O vascaíno, tão perplexo quanto o apresentador, e um pouco nervoso, respondeu, gaguejando:
— Na-na-não sei. Também gostaria de saber. Estava assistindo ao debate e de repente apareci aqui.
Rapidamente o apresentador se deu conta da oportunidade que ele e os colegas de bancada tinham em mãos. Um fenômeno aparentemente metafísico acabara de ocorrer ao vivo! O episódio chamaria a atenção do mundo inteiro. O simplório vascaíno seria a escada perfeita. Dominando o impacto da surpresa e com um sorriso simpático no rosto, o jornalista perguntou ao inesperado membro da bancada:
— E estava gostando do debate?
— Não — respondeu o vascaíno, aparentemente refeito do susto e com inusitada franqueza. — Na verdade, estava com muita raiva — continuou.
O apresentador ficou um tanto desconfiado com a firmeza da resposta e só perguntou:
— Por quê?
O vascaíno, que não tinha qualquer sotaque português (nasceu e foi criado em Vila Valqueire, zona norte do Rio de Janeiro), mandou a letra sem medo:
— Vocês aí, dizendo que o Pedrinho salvou o Vasco e coisa e tal. Como salvou o Vasco?
Um dos membros da bancada, até então calado, respondeu:
— Amigo, os resultados em campo podem até não ser os melhores, mas o Pedrinho está fazendo uma administração muito boa, com salários em dia…
O vascaíno cortou, irritado:
— “Amigo”, ironizou, — não eram vocês que diziam, em tempos idos, que o resultado em campo refletia a administração? Ora, o Pedrinho, graças à recuperação judicial, ficou o ano de 2025 todo sem pagar uma dívida antiga sequer, o que é o sonho de qualquer administrador, e mesmo assim em outubro do mesmo ano pegou um empréstimo de R$ 80 milhões com a Crefisa, em condições draconianas, para pagar salários, e ofereceu ações do Vasco como garantia sem passar pelo aval de nenhum poder do clube.
O apresentador e a bancada estavam preocupados, a prosa estava tomando um rumo inesperado.
Outro membro da bancada contemporizou, com um ar condescendente, como quem diz “você não sabe o que fala”:
— Calma, não é bem assim. O Pedrinho pegou um Vasco destruído e você não pode negar que ele é tão vascaíno quanto você.
A resposta foi imediata:
— Se o Pedrinho pegou um Vasco destruído, ele participou da destruição pois nos últimos anos ele e o grupo político dele apoiaram tudo que foi feito, inclusive a venda para a 777 Partners, tanto assim que ele foi eleito como candidato da situação. Outra coisa: ser vascaíno é o mínimo que se espera de um presidente do Vasco. A outra coisa é não ser corrupto.
O apresentador reagiu, indignado:
— Espere um momento, é leviandade falar em corrupção.
Mais uma vez, o vascaíno não deixou barato:
— Bom, então me explique como é possível o Vasco ter um dos elencos mais caros do Brasil para ter o desempenho que tem? Como vocês me explicam a contratação de amigos do presidente sem qualquer critério técnico, como o caso do Felipe? Se não é corrupção, vocês têm no mínimo que admitir que é incompetência gritante, mas vocês não fazem isso, o que fazem é passar pano.
O apresentador tenta de novo interromper o vascaíno, que, no entanto, está empolgado:
— Na verdade vocês seguem uma linha editorial ditada por conveniência e simpatias pessoais e posso provar. Por exemplo, recentemente um ex-jogador do Vasco, o chileno Jean David, declarou a um importante jornal do seu país que no Vasco os jogadores têm que pagar comissão à diretoria pela transação que os levou ao clube e que ele saiu porque se recusou a pagar.
A bancada estava quase tão perplexa com o discurso quanto com a aparição fantasmagórica do vascaíno na bancada. Ele continuou, cada vez mais zangado:
— O Jean David disse também que conversou com outros jogadores do elenco e todos disseram que pagaram as tais comissões, o que explica o superfaturamento na compra de refugos. Todos os dias eu ligo aqui nesta bancada para ver se vocês comentam o caso e nada. Agora, se o Eurico Miranda estivesse vivo e fosse na gestão dele que tivesse surgido uma denúncia desse tipo, vocês estariam falando no assunto todo santo dia! Mas como é o amigo Pedrinho…
O vascaíno então olha diretamente para um dos membros da bancada, o veterano comentarista Lédio Carmona e cutuca:
– Por falar em amigo, parabéns, Lédio por Pedrinho ter batizado a sala de imprensa de São Januário com seu nome.
Lédio preparava-se para responder quando, da mesma forma que surgiu, o vascaíno sumiu, sem que ninguém soubesse quem era ele de fato.
O novo prodígio deixou o apresentador e os debatedores em estado de choque e, diante do silêncio reinante, entraram os comerciais.
Durante muito tempo especialistas de todo o tipo, comunicadores, psicólogos, esportistas, políticos e religiosos debateram o inédito fenômeno:
como afinal é possível alguém falar a verdade sobre o Vasco em um programa de TV?!?!
Por Wevergton Brito Lima, jornalista, sócio proprietário remido do Club de Regatas Vasco da Gama
Super criativo e tocou o dedo na ferida dessa caterva dos inferno, saudações vascainas
Excelente; parabéns meu amigo e kmarada